sexta-feira, 23 de setembro de 2016

7 anos

Reencontrar você me arrebatou de sentimentos dúbios.  É difícil te olhar com indiferença. É difícil não sentir um nó no estômago quando me lembro de palavras duras que me golpearam há tanto tempo e que ainda trago guardadas em algum canto dentro de mim.  É difícil acreditar que aquilo que fizemos não foi inútil, não jogamos fora sentimentos, não gastamos nosso tempo e nosso afeto com mentiras. É difícil rever. Me desarmar.  Reviver.  É difícil não ter você.

Se escrevo sobre o amor, é  por  acreditar que há  alguma poesia em se falar sobre o desconhecido. Eu, que nunca de fato amei. Faço parte dos que não aprenderam como se faz.  Dos incapazes de superar a imperfeição do outro. Eu, rasa e superficial. Faço parte dos que não se comovem. Daqueles que não conseguem transpor a barreira de si mesmo.

Em mim o tempo se confunde.  Me confunde. Encontrar alguém e ser tocado por velhos desejos sugere que uma parte do outro ainda vive em nós. Que não somos auto-suficientes como gostaríamos. Que depois de tanta vida ainda sobrou  na gente um pedacinho daqueles que dividiram  noites e manhãs conosco.

Bobagem achar que vivemos somente no presente quando diariamente nossa mente e coração oscilam entre o passado e o presente, entre o passado e o futuro.  Seríamos muito mais felizes se tivéssemos uma vida mais permeável, para que o presente pudesse abrigar, sem susto, as coisas boas que sobrevivem daquilo que vivemos. Daquilo que fomos.


O passado nos envolve com a força das repetições. Ele vive me nós, apesar de nós. O passado é uma parte essencial do que desejamos do futuro. 


sábado, 18 de junho de 2016

O tempo leva




O tempo é transformador. Não poupa nada: muda cabelos, sorrisos, certezas. Nos permite olhar para trás com generosidade e para o futuro com esperança.

Anos atrás tomei para mim tudo aquilo que mais gostava em você. A leveza. O riso fácil. A independência. O gosto por aventuras. E experimentei o mundo. A liberdade. Umas breves e outras longas histórias. E fui vasculhando. Encontrando. 

Depois vieram os dias de suor. De sangue. Da labuta diária. Horas intermináveis de plantão. Até que era chegada a hora de mudar. Porque viver partida, sacrificando-me em prol de quem não sabe o meu nome, numa busca incessante pelo vil metal e pela propriedade, não valia a pena. 

A vida é rara. E é tão breve. Juntei minhas coisas, um pouco de coragem, meus medos e vim. Recomecei. E foi tão bom. E tem sido tão bom. Às vezes parece até que a vida encaixou e que eu sou, finalmente, feliz. 

Muitas vezes pensei que, se não fosse por mim, você teria outra vida. Outros amores. Outras histórias. Muitas vezes senti o inevitável peso da culpa. Mas foi o preço que a vida impôs. O preço que a vida nos impôs para um hoje melhor, diferente. E por um hoje melhor, diferente, te peço: aproveite bem os seus dias. 

Viajar é tão bom. Faz bem para o espírito. Transforma. Distrai. Depois de um tempo na estrada, não somos mais os mesmos. Ainda que carreguemos nossas dores para onde quer que andemos, estar longe de casa é libertador. Tem algo a ver com o vento no rosto. O sol que arde na pele. A paisagem que se move diante dos olhos. Os encontros. 

É sozinhos que podemos ser nós mesmos, sem complicações. É sozinhos que nos esticamos na direção de estranhos. Conversamos, rimos, desejamos, ajudamos. Isso nos aproxima de pessoas improváveis. Nos permite recomeçar do zero diante de gente que nunca nos viu. Os dias são leves e intensos. Porque felicidade só uma questão de ser, meu bem. É só uma questão de ser.


Transformações

" Do mal ficam as mágoas na lembrança, 
E do bem (se algum houve) as saudades. 
O tempo cobre o chão de verde manto, 

Que já coberto foi de neve fria, 

E em mim converte em choro o doce canto". 
(Camões)


Algumas relações são transformadoras. O que não significa que vão durar para sempre, mas algo que considero o mais importante delas fica: a certeza de que somos capazes de tocar a vida dos outros e de ser tocado por ela.

Outro dia reencontrei por acaso uma amiga com quem dividi as primeiras angústias de ser médica.  Éramos recém-formadas e tínhamos o peso e as responsabilidades de um pronto socorro sobre os ombros. Seguimos caminhos diferentes e nos perdemos. Na mesma semana esbarrei com uma paixão antiga, breve e arrebatadora. Dessas bem clichês, com direito a juras, flores e barco a remo. Dessas que fazem o coração bater mais forte, mas que acabam antes do avião tocar o solo. E, para falar a verdade, me deu pena.

Deu pena de mim. Dela. Dele. De todos nós que estivemos tão perto e agora somos distantes. Deu muita pena. Mas não havia o que fazer. Não restou nela o que nos uniu. Não restou nele o que me atraiu. Não restou em mim quem eu era.

O tempo passa. O desejo turva. As vontades mudam. As sensações desaparecem. As pessoas somem da vida da gente. Sumimos da vida dos outros. Só existem desencontros.


A vida é assim. Feita das coisas que acontecem. Das coisas que poderiam ter acontecido. E de tudo o que vaga por aí como alternativas que, a qualquer momento, podem virar realidade. Como quando alguém que sumiu reaparece, anos depois, com um sorriso singelo no rosto, pedindo para entrar. 



terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Vivências

"Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar..."




Último paciente do dia, queixa banal. Ao final da consulta ele, um senhor de meia idade, pouco estudo e coração puro, pegou  minhas mãos e disse: -doutora, me apeguei em deus nesses dias para você melhorar. Ele se foi e eu fiquei agradecida. Senti sinceridade naquelas palavras simples.


Mais tarde, já em casa, mal pude acreditar que passou-se quase um ano inteiro. Gosto de olhar para trás antes de seguir em frente. Pensei em tudo o que vivi. Em como cresci. Pensei em você prestes a passar pelas mesmas situações, com todas as agruras e recompensas.  Pensei naquilo que gostaria, nesse momento, de lhe dizer.


Não é fácil trocar tantos dias ensolarados por suor e sangue. Negligenciar a própria família para cuidar da família dos outros. Deixar amigos, amores e desejos de lado para tomar conta de gente que, na maioria das vezes, nem sabe seu nome. Assistir ao sofrimento alheio. Navegar diariamente num mar de fatalidades, enfrentando mortes inesperadas e inexoráveis. Aprender a aceitar. Carregar culpas. Lidar com tanta impotência frente aos desequilíbrios do corpo, frente à fragilidade da vida. Não é fácil. Não quando se é tão jovem. Não quando se há tanto por viver.


Mas há dias bons. Dias de esperança. De agradecimentos. De boas notícias. Dias em que aquele um, apesar de todas as expectativas, se salva. Dias que sentimos nos ombros as mãos de Deus. Dias que fazem todos os outros serem bons também.


A medicina é um ofício que transforma em fortes mãos inábeis. Traz maturidade para enfrentar situações adversas. Ensina a dar valor à vida. A ter compaixão pelo próximo. A respeitar a Deus. E, embora eu saiba que o que fazemos não define quem somos, acredito que somos sim um pouquinho daquilo que amamos.


Vai valer a pena. 

Vale a pena. 
                         
P.




terça-feira, 22 de outubro de 2013

Conjecturas

"Ah, tem uma repetição, que sempre outras vezes em minha vida acontece. Eu atravesso as coisas - e no meio da travessia não vejo! Só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do que primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?"





Refaço, redigo, pondero. Escrevo, apago, repenso, mas sigo. Sigo atolada até a alma num cotidiano frustrante que, ao final de cada mês, recompensa com o vil metal que uso para esquecer os amores que desfiz com os próprios dedos, a negligência com os carinhos de casa, a solidão que me navega e a inutilidade que é correr de sol a sol perseguindo os desejos dos outros enquanto ainda há tanta vida por se enfrentar por ai. Enquando ainda há tanto por se viver por ai.



Sigo.




Até o dia em que.




Até que.




quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O resto é mar...



Você ainda nem sabe, mas gosto muito da palavra escrita. De poder brincar de poeta no meio do caos cotidiano. Das coisas poderem ser nas linhas como as quero. De registrar em papel o quanto a vida me toca. O quanto a vida me comove. Depois de pensar em tudo o que conversamos eu quis muito escrever para você alguma coisa minha. Bonita. Leve. Simples. Alguma coisa tão linda que te fizesse largar tudo e correr para os meus braços. Que te fizesse tocar o interfone e me convidar para sermos felizes para sempre. Que te convencesse a tentar. Que te fizesse ficar. 



Não consegui e saí para caminhar. Sem pressa. Sem rumo. Sem pretensões. Em algum lugar do trajeto, avistei uma praça e me sentei num cantinho escondido. E ali sentada, ao me descobrir na vastidão do nada, me senti rendida. Rendida pelas amarras invisíveis que as circunstâncias me impuseram. Que eu me impus. Que eu sempre me imponho.Olhei em volta sem conseguir sorrir. Fechei os olhos e respirei fundo na tentativa de encher meus pulmões de ar.  Pensei no meu desejo de mudança. Na vontade de fazer uma reviravolta em mim. No medo que me paralisa. Em mim. Em nós. Pensei na falta que você me faz.



Esses últimos dias sem você me doeram. E me doeram porque ainda gosto. Ainda gosto do cheiro. Do gosto. Do peso dos teus dedos na minha pele. Das bobagens que você inventa para me fazer rir. Do sono compartilhado. De você. De você, que me aquece a alma. Que me dá vontade de viver, de ser um alguém melhor.



Acho que ainda há tanto a ser revelado. A ser descoberto. As coincidências que fatalmente unem duas pessoas não acabaram de acontecer. A cumplicidade que também se constrói na ausência, na espera, nas longas conversas, na saudade e no querer ainda não se completou.O tempo ainda não agiu a nosso favor. Nós ainda não vivemos juntos a sorte de um amor tranquilo.





Mas sei bem das minhas cobranças. Das suas incertezas. De como o desejo é incompatível com as dificuldades. Do esforço enorme que faço para deixar de ser tua. Sei bem que eu só aceito a condição de ter você só para mim. 

domingo, 2 de junho de 2013

Marina Morena Marina



Entreabro a porta devagar e olho, de soslaio, para você. Sempre tão lindo: dentro, fora. Chega de arrombo trazendo leveza. Devassando minha visão estreita de mundo. Zombando das minhas idiossincrasias. Me fazendo rir.

Pelo caminho me livro, peça a peça, da roupa que me cobre o corpo. Me enfio em silêncio ao teu lado, debaixo do cobertor. Repouso em teu peito minha cabeça. Entrelaço nos teus os dedos meus. Discorro sobre a vida e seus desvios. Desvãos. A vida e seus atalhos imprevistos.

Pouco antes de adormecer reconheço na estante, como da primeira vez em que aqui estive, os heróis que moldaram tanto talento. Escuto tuas histórias sobre os portos em que passaste. Presto atenção nas partituras, nas curvas, na caixa do sax estendida sob o chão. Detalhes de um universo que, antes de ti, jamais notara a existência.

Acordo, horas depois, de um sono leve e sem amarras. Procuro por você e te encontro ao fundo, calado, meio taciturno. Tamborilando um a um os dedos sobre a mesa. Cozinhando em fogo brando a espera de um retorno de alguém que sabe-se lá quando virá. E eu, para não ser tomada por um arrombo de inadequação, desvencilho meus olhos de você e mudo de cena.

Repouso os braços curtos sobre a janela e me perco, absorta, nas vidas severinas que vagam de sol a sol pelas ruas, caminhando sobre um chão de suor, sangue e muita labuta. Penso em mim, atolada até os joelhos numa rotina solitária e sufocante. Sacrificando-me em prol de gente que nem sabe o meu nome. Carregando tantas mortes sobre os ombros. Me equilibrando em passos largos para não desabar.

Olho, outra vez, em volta. Os resquícios finais do sol, tingem toda a tarde de um tom meio alaranjado, meio amarelado, meio mágico. Reparo nas árvores perdendo as folhas. Nas flores jogadas, feito tapete, ao chão.

Reparo novamente em você. No colorido discreto dos olhos que, por tanto tempo, julguei serem negros. Nos pelos. Na barba por fazer. No cheiro do pescoço. No gosto da tua boca. Reparo na vida, que sempre continua. E fico querendo virar tua pele.

Me contar. Te sentir. Me perder. Te despir. 

Te revirar.


domingo, 3 de março de 2013

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Adeus você!



Estou hoje muda. Sem espaço. Sem texto. Sem palavras. Fecho os olhos e mal posso sentir a mim mesma. O tempo é fugaz. Traiçoeiro. Pouco demais para tantos sonhos. Para tanta vida. E a vida, pequena demais para tantos desejos. Tantos quereres. Para tanta espera.



Estou hoje lúcida. Desassossegada. Amedrontada. Despedaçada. O barulho que há em mim me cega. A escuridão me ensurdece. As dúvidas me enlouquecem. Me perco nos desvios de mim. Procuro por caminhos, certezas, um rumo: não há.



Estou hoje pronta.  Inteira. Serena. Agradecida. 




Acabou. É chegada a  hora de partir. 



quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Olhos nos Olhos


"Still I'm glad for what we had
 and how I once loved you..."



Nessa noite fria, em que não se enxerga nada além da neblina espessa misturada a escuridão, te resgato numa epifania sem propósito definido.  Depois de quase dois anos sem te escrever, tive vontade de me contar.


Nesse tempo sem você vaguei, por vezes, por essas ruas do rio sem o teu olhar para me guiar. Conheci a cidade por outro ângulo. Caminhei sozinha pela Nascimento Silva. Fotografei. Redescobri a Lapa e suas esquinas. Me apaixonei. Jantei em lugares que nunca fomos. Aprendi novos sambas. Gostei mais da minha própria pele. Vi gente morrer sem poder fazer nada. Estive lado a lado do meu pai durante longos segundos de uma parada cardíaca. O vi voltar à vida. Chorei agradecida aos pés do Cristo, sempre tão redentor. Fiz meu esse lugar outrora tão seu. Me despi dos meus próprios preconceitos. Me libertei de você. De mim mesma. Das amarras que aceitei, dia a dia, sem me resignar. Sem me subverter.




Quando paro e olho para trás, sei que a gente poderia ter se poupado. A gente deveria ter se poupado: mas eu não soube perder. Nunca soube. 


Hoje, um pouco mais madura, vejo que você faz parte do que me fez crescer. Por tudo isso, te agradeço. Zero as nossas contas. E, se fecho os olhos, posso aproveitar por alguns instantes tudo aquilo que tínhamos de melhor.


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Outros Portos



“E decidiu: vou viajar. Porque não morri, porque é verão, porque é tarde demais e eu quero ver, rever, transver, milver tudo que não vi e ainda mais do que já vi, como um danado, quero ver feito Pessoa, que também morreu sem encontrar. Maldito e solitário, decidiu ousado: vou viajar”.




Acordo bem cedo para arrumar os últimos detalhes: coloco a máquina fotográfica na bolsa. Deixo comida para o cachorro. Esqueço, num canto qualquer, os desencontros, malogros e silêncios não pontuados. Parto, sozinha. Com planos enormes de desbravar um mar que não conheço. Que não sei se é raso ou profundo. Bem a tempo de ver o céu se iluminar com a luz do sol do dia que começa a amanhecer.



Ao chegar penso, por alguns instantes, em você e em todas as suas histórias sobre esse lugar.  Me faz tão mal lembrar, repito para mim mesma antes de esboçar alguma reação singela como um sorriso. Foi há tanto tempo. Uma outra vida. Um alguém que, ao espelho, não mais reconheço. Que não me recordo de ter sido. Fui? Fomos?



Providencialmente, segundos depois, uma criança que passa de mãos dadas com os pais desvia a minha atenção. Fecho os olhos, sinto a brisa da manhã me tocar. Respiro fundo, olho além: vejo o momento presente. Parto, novamente sozinha. Caminhando em passos curtos e leves. Movida por uma força de ressaca que me atrai sempre para essa vastidão do mar. Para essa imensidão da vida.






sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Por descuido ou poesia


"As coisas tangíveis 
   tornam-se insensíveis 
   à palma da mão". 
   




Gosto de você. Mesmo sem conhecer direito o cheiro. As idiossincrasias. O peso dos teus dedos. O franzir de sobrancelhas durante alguma conversa esquiva. Você, tão parecido comigo, mas de uma maneira completamente diferente. Você, que não me vê.


Em meus devaneios marquei encontros contigo à meia luz. Vi filmes de mãos bem dadas. Tomei banhos de mar. Escrevi roteiros do teu corpo só para percorrê-los, um a um, com o meu. Dancei sambas e bossas, à tua espera, na bagunça do meu apartamento.


Você é diferente. Acho que você vale a pena. Por isso, insisto. E sou paciente. E espero.