quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Nuvens de Baudelaire

Eu não gosto de ficar longe das palavras. Nem de você. Tenho tanta coisa pra dizer. Passei por tantas coisas novas. Emoções que me fizeram calar. Depois de um ano percebo que a mudança por estar dentro de um hospital se completou: navegar por aqueles corredores me deixou mais forte. Hoje aceito melhor quem eu sou. Aprendi a ter foco. A não me perder em abismos dentro de mim. A não deixar o medo me paralisar. A agir com calma, discernimento e cautela. Tudo para evitar que, por minha falha, alguém morra.

Sou constantemente cobrada. Não bastar e ter consciência disso me ensinou a não sofrer tanto. Faço aquilo que posso, nem mais, nem menos. Mantenho tudo à distância segura de mim. Fiquei mais dura, mais seca. Mais conformada com prognósticos ruins e casos sem salvação. Mais cética aos clichês hollywoodianos e promessas de felicidade instantâneas. É o preço das dificuldades da vida real. E para não perder completamente a doçura, sigo prestando atenção em coincidências, cores, epifanias e acasos. Chorando em despedidas. Torcendo pelo melhor. E com pequenas esperanças, novinhas em folha, quase todos os dias.

Talvez seja culpa da minha alma romântica ocidental, mas não sei deixar você ir. Porque você me entende. Bagunça o meu cabelo. Fala a coisa certa. Me arranca, pedacinho por pedacinho, das minhas próprias mãos. Acalma meu olhar impaciente, essa minha urgência de viver. Traz para mim harmonia e o cheiro de mar, do mar que não há nesta cidade. Não sei explicar, acho que é uma questão de amor.

Só entendi que havíamos seguido caminhos diferentes dias depois daquela nossa conversa, quando avistei, no meio de uma praça, um canteiro de ipês. Desviei o olhar, mas era tarde: meu coração já batia mais forte no meu peito. Lembrei que amarelo para mim é luz. Tranqüilidade. Brilha. Ilumina. Amarelo sempre foi você. Aí pensei no mar, que sem luz, é negro. Pensei em mim, sem você. Chorei. Achei que não fosse agüentar.

Choveu. Quando se perde um amor, chove. Os sonhos empalidecem. Os planos nublam. Sei lá, as pessoas se cansam uma das outras. O outro deixa de ser uma surpresa e se torna uma repetição. As vontades mudam. Mas aprendi que, para não passar anos dividindo o teto, mas não a vida; a cama, mas não as aflições; jurando amar na alegria, tristeza, saúde ou doença, mas nunca quando aparecer alguém interessante numa festa é preciso deixar o outro ir. Deixar o outro ir e abrir bem as janelas. Abrir as janelas para entrar o sol de um novo dia. Tento deixá-lo ir. E com cuidado, com amor, te abraço forte e te beijo.