domingo, 1 de janeiro de 2012

Memento mori

Paciente internado por uma semana em Unidade de Pronto Atendimento para tratar uma insuficiência renal crônica agudizada que ele nem tinha veio encaminhado sem acompanhante, em delirium e sem antecendentes conhecidos. Depois de alguma investigação, diagnóstico solucionado: idoso, vítima de queda, piorando progressivamente as funções mentais e motoras devido a um hematoma subdural crônico de grande monta.

-Vai morrer! Precisa de neurocirurgia urgente, transfira-o, ordenou um dos mestres.


Por quase uma semana minha vida foi um corre para cima pegando exames, corre para baixo adiantando laudos, uma espera lenta por uma vaga que custava a vir.

A transferência saiu na manhã de natal. Dias depois, ao procurar saber sobre a evolução do quadro, veio a desoladora notícia de que nada seria feito: os riscos eram muito altos, a equipe não queria mais uma morte, o paciente era velho e demente demais. Minha indignação de nada adiantou, naquele momento deu-se o desfecho definitivo do caso: uma internação que provavelmente durará meses até que alguma infecção nosocomial cale o último sopro de vida.

-Minha filha, a medicina nem sempre é assim, consolou-me o mestre.


O paciente continua vivo. Sem prognóstico. Sem chance de salvação. Abandonado à própria sorte. E eu sigo com uma frustração nada altruísta: pelo meu fracasso. Por ser espectadora do sofrimento alheio. Por ser jovem e ter que lidar com tudo isso. Por trazer esse memento mori para dentro de casa, pelos jantares, pelos dias ensolarados trocados por suor e sangue.