Foi tão bom voltar. Redescobrir o Rio foi isento de qualquer dor. Rua Nascimento Silva, cruzamento com a Vinícius de Moraes, pôr-do-sol no Arpoador, Copacabana princesinha do mar, a Lapa e suas esquinas, Gomes Freire, Inválidos, Rua do Rezende e Riachuelo. Tudo sem abismos, sem pregressos. Só ali, no raso e simples, com o céu refletindo dias tão lindos que nada poderia dar errado. Ao fundo, novos sambas. Nenhuma bossa. Seguir era irresistível.
Desviei o olhar ao perceber o seu, medi palavras, tergiversei intenções. Mas antes que pudesse hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer, eu já estava porta adentro, à meia luz. Sapatos postos num canto, regras da casa. Em outro, Balzac, Homero, Freud, Machado, a caixa do sax, discos antigos, partituras e todos os moldes de tanto talento. Eu redescobria, em meio a taquicardias e coragens insensatas, pequenas epifanias há tempos esquecidas em mim. Tudo era de uma ternura encantadora: suas mãos nas minhas, nossas pernas entrelaçadas, meu rosto repousado no seu peito, um perfume vago no ar. Meus sonhos refeitos. Um turbilhão de sensações dentro de mim. Libertação.
Foi tão bom voltar. Para redescobrir. Amanhecer. Encerrar. Estremecer. Enlouquecer. Voltar para perder, entre a Mem de Sá e a Lavradio, outra vez, meu coração.