domingo, 2 de junho de 2013

Marina Morena Marina



Entreabro a porta devagar e olho, de soslaio, para você. Sempre tão lindo: dentro, fora. Chega de arrombo trazendo leveza. Devassando minha visão estreita de mundo. Zombando das minhas idiossincrasias. Me fazendo rir.

Pelo caminho me livro, peça a peça, da roupa que me cobre o corpo. Me enfio em silêncio ao teu lado, debaixo do cobertor. Repouso em teu peito minha cabeça. Entrelaço nos teus os dedos meus. Discorro sobre a vida e seus desvios. Desvãos. A vida e seus atalhos imprevistos.

Pouco antes de adormecer reconheço na estante, como da primeira vez em que aqui estive, os heróis que moldaram tanto talento. Escuto tuas histórias sobre os portos em que passaste. Presto atenção nas partituras, nas curvas, na caixa do sax estendida sob o chão. Detalhes de um universo que, antes de ti, jamais notara a existência.

Acordo, horas depois, de um sono leve e sem amarras. Procuro por você e te encontro ao fundo, calado, meio taciturno. Tamborilando um a um os dedos sobre a mesa. Cozinhando em fogo brando a espera de um retorno de alguém que sabe-se lá quando virá. E eu, para não ser tomada por um arrombo de inadequação, desvencilho meus olhos de você e mudo de cena.

Repouso os braços curtos sobre a janela e me perco, absorta, nas vidas severinas que vagam de sol a sol pelas ruas, caminhando sobre um chão de suor, sangue e muita labuta. Penso em mim, atolada até os joelhos numa rotina solitária e sufocante. Sacrificando-me em prol de gente que nem sabe o meu nome. Carregando tantas mortes sobre os ombros. Me equilibrando em passos largos para não desabar.

Olho, outra vez, em volta. Os resquícios finais do sol, tingem toda a tarde de um tom meio alaranjado, meio amarelado, meio mágico. Reparo nas árvores perdendo as folhas. Nas flores jogadas, feito tapete, ao chão.

Reparo novamente em você. No colorido discreto dos olhos que, por tanto tempo, julguei serem negros. Nos pelos. Na barba por fazer. No cheiro do pescoço. No gosto da tua boca. Reparo na vida, que sempre continua. E fico querendo virar tua pele.

Me contar. Te sentir. Me perder. Te despir. 

Te revirar.


Um comentário:

Anônimo disse...

Paola, você está morando no Rio?