Reencontrar você me arrebatou de sentimentos dúbios. É difícil te olhar com indiferença. É difícil
não sentir um nó no estômago quando me lembro de palavras duras que me
golpearam há tanto tempo e que ainda trago guardadas em algum canto dentro de
mim. É difícil acreditar que aquilo que
fizemos não foi inútil, não jogamos fora sentimentos, não gastamos nosso tempo
e nosso afeto com mentiras. É difícil rever. Me desarmar. Reviver.
É difícil não ter você.
Se escrevo sobre o amor, é
por acreditar que há alguma poesia em se falar sobre o
desconhecido. Eu, que nunca de fato amei. Faço parte dos que não aprenderam
como se faz. Dos incapazes de superar a
imperfeição do outro. Eu, rasa e superficial. Faço parte dos que não se comovem.
Daqueles que não conseguem transpor a barreira de si mesmo.
Em mim o tempo se confunde.
Me confunde. Encontrar alguém e ser tocado por velhos desejos sugere que
uma parte do outro ainda vive em nós. Que não somos auto-suficientes como
gostaríamos. Que depois de tanta vida ainda sobrou na gente um pedacinho daqueles que
dividiram noites e manhãs conosco.
Bobagem achar que vivemos somente no presente quando
diariamente nossa mente e coração oscilam entre o passado e o presente, entre o
passado e o futuro. Seríamos muito mais
felizes se tivéssemos uma vida mais permeável, para que o presente pudesse
abrigar, sem susto, as coisas boas que sobrevivem daquilo que vivemos. Daquilo que fomos.
O passado nos envolve com a força das repetições. Ele vive me
nós, apesar de nós. O passado é uma parte essencial do que desejamos do futuro.
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