segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Outros Portos



“E decidiu: vou viajar. Porque não morri, porque é verão, porque é tarde demais e eu quero ver, rever, transver, milver tudo que não vi e ainda mais do que já vi, como um danado, quero ver feito Pessoa, que também morreu sem encontrar. Maldito e solitário, decidiu ousado: vou viajar”.




Acordo bem cedo para arrumar os últimos detalhes: coloco a máquina fotográfica na bolsa. Deixo comida para o cachorro. Esqueço, num canto qualquer, os desencontros, malogros e silêncios não pontuados. Parto, sozinha. Com planos enormes de desbravar um mar que não conheço. Que não sei se é raso ou profundo. Bem a tempo de ver o céu se iluminar com a luz do sol do dia que começa a amanhecer.



Ao chegar penso, por alguns instantes, em você e em todas as suas histórias sobre esse lugar.  Me faz tão mal lembrar, repito para mim mesma antes de esboçar alguma reação singela como um sorriso. Foi há tanto tempo. Uma outra vida. Um alguém que, ao espelho, não mais reconheço. Que não me recordo de ter sido. Fui? Fomos?



Providencialmente, segundos depois, uma criança que passa de mãos dadas com os pais desvia a minha atenção. Fecho os olhos, sinto a brisa da manhã me tocar. Respiro fundo, olho além: vejo o momento presente. Parto, novamente sozinha. Caminhando em passos curtos e leves. Movida por uma força de ressaca que me atrai sempre para essa vastidão do mar. Para essa imensidão da vida.






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