“E decidiu: vou viajar. Porque não morri, porque
é verão, porque é tarde demais e eu quero ver, rever, transver, milver tudo que
não vi e ainda mais do que já vi, como um danado, quero ver feito Pessoa, que
também morreu sem encontrar. Maldito e solitário, decidiu ousado: vou viajar”.
Acordo bem cedo para arrumar os
últimos detalhes: coloco a máquina fotográfica na bolsa. Deixo comida para o
cachorro. Esqueço, num canto qualquer, os desencontros, malogros e silêncios
não pontuados. Parto, sozinha. Com planos enormes de desbravar um mar que não conheço.
Que não sei se é raso ou profundo. Bem a tempo de ver o céu se iluminar com a
luz do sol do dia que começa a amanhecer.
Ao chegar penso, por alguns
instantes, em você e em todas as suas histórias sobre esse lugar. Me faz tão mal lembrar, repito para mim mesma
antes de esboçar alguma reação singela como um sorriso. Foi há tanto tempo. Uma
outra vida. Um alguém que, ao espelho, não mais reconheço. Que não me recordo de
ter sido. Fui? Fomos?
Providencialmente, segundos
depois, uma criança que passa de mãos dadas com os pais desvia a minha atenção.
Fecho os olhos, sinto a brisa da manhã me tocar. Respiro fundo, olho além: vejo
o momento presente. Parto, novamente sozinha. Caminhando em passos curtos e
leves. Movida por uma força de ressaca que me atrai sempre para essa vastidão do
mar. Para essa imensidão da vida.
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