sábado, 18 de junho de 2016

O tempo leva




O tempo é transformador. Não poupa nada: muda cabelos, sorrisos, certezas. Nos permite olhar para trás com generosidade e para o futuro com esperança.

Anos atrás tomei para mim tudo aquilo que mais gostava em você. A leveza. O riso fácil. A independência. O gosto por aventuras. E experimentei o mundo. A liberdade. Umas breves e outras longas histórias. E fui vasculhando. Encontrando. 

Depois vieram os dias de suor. De sangue. Da labuta diária. Horas intermináveis de plantão. Até que era chegada a hora de mudar. Porque viver partida, sacrificando-me em prol de quem não sabe o meu nome, numa busca incessante pelo vil metal e pela propriedade, não valia a pena. 

A vida é rara. E é tão breve. Juntei minhas coisas, um pouco de coragem, meus medos e vim. Recomecei. E foi tão bom. E tem sido tão bom. Às vezes parece até que a vida encaixou e que eu sou, finalmente, feliz. 

Muitas vezes pensei que, se não fosse por mim, você teria outra vida. Outros amores. Outras histórias. Muitas vezes senti o inevitável peso da culpa. Mas foi o preço que a vida impôs. O preço que a vida nos impôs para um hoje melhor, diferente. E por um hoje melhor, diferente, te peço: aproveite bem os seus dias. 

Viajar é tão bom. Faz bem para o espírito. Transforma. Distrai. Depois de um tempo na estrada, não somos mais os mesmos. Ainda que carreguemos nossas dores para onde quer que andemos, estar longe de casa é libertador. Tem algo a ver com o vento no rosto. O sol que arde na pele. A paisagem que se move diante dos olhos. Os encontros. 

É sozinhos que podemos ser nós mesmos, sem complicações. É sozinhos que nos esticamos na direção de estranhos. Conversamos, rimos, desejamos, ajudamos. Isso nos aproxima de pessoas improváveis. Nos permite recomeçar do zero diante de gente que nunca nos viu. Os dias são leves e intensos. Porque felicidade só uma questão de ser, meu bem. É só uma questão de ser.


Transformações

" Do mal ficam as mágoas na lembrança, 
E do bem (se algum houve) as saudades. 
O tempo cobre o chão de verde manto, 

Que já coberto foi de neve fria, 

E em mim converte em choro o doce canto". 
(Camões)


Algumas relações são transformadoras. O que não significa que vão durar para sempre, mas algo que considero o mais importante delas fica: a certeza de que somos capazes de tocar a vida dos outros e de ser tocado por ela.

Outro dia reencontrei por acaso uma amiga com quem dividi as primeiras angústias de ser médica.  Éramos recém-formadas e tínhamos o peso e as responsabilidades de um pronto socorro sobre os ombros. Seguimos caminhos diferentes e nos perdemos. Na mesma semana esbarrei com uma paixão antiga, breve e arrebatadora. Dessas bem clichês, com direito a juras, flores e barco a remo. Dessas que fazem o coração bater mais forte, mas que acabam antes do avião tocar o solo. E, para falar a verdade, me deu pena.

Deu pena de mim. Dela. Dele. De todos nós que estivemos tão perto e agora somos distantes. Deu muita pena. Mas não havia o que fazer. Não restou nela o que nos uniu. Não restou nele o que me atraiu. Não restou em mim quem eu era.

O tempo passa. O desejo turva. As vontades mudam. As sensações desaparecem. As pessoas somem da vida da gente. Sumimos da vida dos outros. Só existem desencontros.


A vida é assim. Feita das coisas que acontecem. Das coisas que poderiam ter acontecido. E de tudo o que vaga por aí como alternativas que, a qualquer momento, podem virar realidade. Como quando alguém que sumiu reaparece, anos depois, com um sorriso singelo no rosto, pedindo para entrar.