sábado, 18 de junho de 2016

Transformações

" Do mal ficam as mágoas na lembrança, 
E do bem (se algum houve) as saudades. 
O tempo cobre o chão de verde manto, 

Que já coberto foi de neve fria, 

E em mim converte em choro o doce canto". 
(Camões)


Algumas relações são transformadoras. O que não significa que vão durar para sempre, mas algo que considero o mais importante delas fica: a certeza de que somos capazes de tocar a vida dos outros e de ser tocado por ela.

Outro dia reencontrei por acaso uma amiga com quem dividi as primeiras angústias de ser médica.  Éramos recém-formadas e tínhamos o peso e as responsabilidades de um pronto socorro sobre os ombros. Seguimos caminhos diferentes e nos perdemos. Na mesma semana esbarrei com uma paixão antiga, breve e arrebatadora. Dessas bem clichês, com direito a juras, flores e barco a remo. Dessas que fazem o coração bater mais forte, mas que acabam antes do avião tocar o solo. E, para falar a verdade, me deu pena.

Deu pena de mim. Dela. Dele. De todos nós que estivemos tão perto e agora somos distantes. Deu muita pena. Mas não havia o que fazer. Não restou nela o que nos uniu. Não restou nele o que me atraiu. Não restou em mim quem eu era.

O tempo passa. O desejo turva. As vontades mudam. As sensações desaparecem. As pessoas somem da vida da gente. Sumimos da vida dos outros. Só existem desencontros.


A vida é assim. Feita das coisas que acontecem. Das coisas que poderiam ter acontecido. E de tudo o que vaga por aí como alternativas que, a qualquer momento, podem virar realidade. Como quando alguém que sumiu reaparece, anos depois, com um sorriso singelo no rosto, pedindo para entrar. 



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