" Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto".
(Camões)
Algumas
relações são transformadoras. O que não significa que vão durar para sempre,
mas algo que considero o mais importante delas fica: a certeza de que somos
capazes de tocar a vida dos outros e de ser tocado por ela.
Outro
dia reencontrei por acaso uma amiga com quem dividi as primeiras angústias de
ser médica. Éramos recém-formadas e tínhamos
o peso e as responsabilidades de um pronto socorro sobre os ombros. Seguimos caminhos
diferentes e nos perdemos. Na mesma semana esbarrei com uma paixão antiga,
breve e arrebatadora. Dessas bem clichês, com direito a juras, flores e barco a
remo. Dessas que fazem o coração bater mais forte, mas que acabam antes do
avião tocar o solo. E, para falar a verdade, me deu pena.
Deu
pena de mim. Dela. Dele. De todos nós que estivemos tão perto e agora somos distantes.
Deu muita pena. Mas não havia o que fazer. Não restou nela o que nos uniu. Não
restou nele o que me atraiu. Não restou em mim quem eu era.
O
tempo passa. O desejo turva. As vontades mudam. As sensações desaparecem. As
pessoas somem da vida da gente. Sumimos da vida dos outros. Só existem
desencontros.
A
vida é assim. Feita das coisas que acontecem. Das coisas que poderiam ter
acontecido. E de tudo o que vaga por aí como alternativas que, a qualquer
momento, podem virar realidade. Como quando alguém que sumiu reaparece, anos depois, com um sorriso singelo no
rosto, pedindo para entrar.
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