quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Olhos nos Olhos


"Still I'm glad for what we had
 and how I once loved you..."



Nessa noite fria, em que não se enxerga nada além da neblina espessa misturada a escuridão, te resgato numa epifania sem propósito definido.  Depois de quase dois anos sem te escrever, tive vontade de me contar.


Nesse tempo sem você vaguei, por vezes, por essas ruas do rio sem o teu olhar para me guiar. Conheci a cidade por outro ângulo. Caminhei sozinha pela Nascimento Silva. Fotografei. Redescobri a Lapa e suas esquinas. Me apaixonei. Jantei em lugares que nunca fomos. Aprendi novos sambas. Gostei mais da minha própria pele. Vi gente morrer sem poder fazer nada. Estive lado a lado do meu pai durante longos segundos de uma parada cardíaca. O vi voltar à vida. Chorei agradecida aos pés do Cristo, sempre tão redentor. Fiz meu esse lugar outrora tão seu. Me despi dos meus próprios preconceitos. Me libertei de você. De mim mesma. Das amarras que aceitei, dia a dia, sem me resignar. Sem me subverter.




Quando paro e olho para trás, sei que a gente poderia ter se poupado. A gente deveria ter se poupado: mas eu não soube perder. Nunca soube. 


Hoje, um pouco mais madura, vejo que você faz parte do que me fez crescer. Por tudo isso, te agradeço. Zero as nossas contas. E, se fecho os olhos, posso aproveitar por alguns instantes tudo aquilo que tínhamos de melhor.


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Outros Portos



“E decidiu: vou viajar. Porque não morri, porque é verão, porque é tarde demais e eu quero ver, rever, transver, milver tudo que não vi e ainda mais do que já vi, como um danado, quero ver feito Pessoa, que também morreu sem encontrar. Maldito e solitário, decidiu ousado: vou viajar”.




Acordo bem cedo para arrumar os últimos detalhes: coloco a máquina fotográfica na bolsa. Deixo comida para o cachorro. Esqueço, num canto qualquer, os desencontros, malogros e silêncios não pontuados. Parto, sozinha. Com planos enormes de desbravar um mar que não conheço. Que não sei se é raso ou profundo. Bem a tempo de ver o céu se iluminar com a luz do sol do dia que começa a amanhecer.



Ao chegar penso, por alguns instantes, em você e em todas as suas histórias sobre esse lugar.  Me faz tão mal lembrar, repito para mim mesma antes de esboçar alguma reação singela como um sorriso. Foi há tanto tempo. Uma outra vida. Um alguém que, ao espelho, não mais reconheço. Que não me recordo de ter sido. Fui? Fomos?



Providencialmente, segundos depois, uma criança que passa de mãos dadas com os pais desvia a minha atenção. Fecho os olhos, sinto a brisa da manhã me tocar. Respiro fundo, olho além: vejo o momento presente. Parto, novamente sozinha. Caminhando em passos curtos e leves. Movida por uma força de ressaca que me atrai sempre para essa vastidão do mar. Para essa imensidão da vida.






sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Por descuido ou poesia


"As coisas tangíveis 
   tornam-se insensíveis 
   à palma da mão". 
   




Gosto de você. Mesmo sem conhecer direito o cheiro. As idiossincrasias. O peso dos teus dedos. O franzir de sobrancelhas durante alguma conversa esquiva. Você, tão parecido comigo, mas de uma maneira completamente diferente. Você, que não me vê.


Em meus devaneios marquei encontros contigo à meia luz. Vi filmes de mãos bem dadas. Tomei banhos de mar. Escrevi roteiros do teu corpo só para percorrê-los, um a um, com o meu. Dancei sambas e bossas, à tua espera, na bagunça do meu apartamento.


Você é diferente. Acho que você vale a pena. Por isso, insisto. E sou paciente. E espero.