Passaram os ventos de Agosto, levando tudo.
As árvores humilhadas bateram, bateram com os ramos no chão.
Voaram telhados, voaram andaimes, voaram coisas imensas:
os ninhos que os homens não viram nos galhos,
e uma esperança que ninguém viu, num coração.
Passaram os ventos de Agosto, terríveis, por dentro da noite.
Em todos os sonos pisou, quebrando-os, o seu tropel.
Mas, sobre a paisagem cansada da aventura excessiva-
sem forma e sem eco,
o sol encontrou outra vez as crianças procurando o outra vez o vento
para soltarem papagaios de papel.
(Cecília Meireles)
terça-feira, 31 de agosto de 2010
domingo, 29 de agosto de 2010
Por toda a minha vida, eu vou te amar...
"Nuvens passageiras levadas pelo vento
A perderem-se na distância infinita do tempo"(Neusa Calafiori, in memoriam)
Assim que cheguei o professor me entregou um prontuário e pediu prioridade. A paciente havia sido atendida pela manhã, em regime de pronto atendimento, e retornava agora para acompanhamento do caso. Ali na minha frente estava uma mulher emagrecida, de cinquenta e poucos anos, alcóolatra, que para manter o vício deixara tudo de lado, inclusive a dignidade. Durante a anamnese ficou evidente para mim o quanto somos moldados pelo ambiente em que vivemos, pelas oportunidades que perdemos e pelas pessoas que amamos.
Há, em mim, traços dos meus pais, de todos os lugares onde cresci e de tudo o que vivi, mas nada disso foi tão marcante em minha vida quanto a presença da minha avó. Ela, também mineira, foi filha única, falava francês, tocava piano e só cozinhava pratos sofisticados. Casada, foi mãe de cinco. Divorciou-se numa época em que os casamentos, mesmo ruins, eram indissolúveis, Tornou-se advogada. Sempre foi poeta. E me amou incondicionalmente.
Aprendi logo cedo que avó não era para educar e sim para fazer tudo o que a netinha quisesse. Eu era a preferida e ela não fazia questão de esconder isso. Gostava mais de mim e pronto. Com ela, passei invernos e verãos. Dias de sol em Itapema e Balneário. Caminhadas no Parque Malwee. Lanches no sorvetão. Brincadeiras na escada do prédio. Aprendi a fazer fogueira de fósforo, a comer crepe suíço, a ter boas maneiras à mesa, a não falar palavrão e a não mentir. Dela herdei a paixão por poesia, Frank Sinatra e a vontade de ter um amor tão lindo quando o narrado em strangers in the night.
No fim dos seus dias vagava pela casa declamando a diferença entre amor e paixão, alheia ao presente. As unhas ainda eram pintadas de vermelho, mas os cabelos loiros ficavam cada vez mais claros e os olhos azuis cada vez mais distantes. Nossa despedida foi sem palavras. Ela, aos setenta e dois, havia sofrido um AVE e estava internada. Não respondia mais, mas quando disseram que eu estava no quarto, me procurou com o olhar, estendeu uma das mãos e apertou a minha com toda a força que ainda lhe restava. Eu fui a última pessoa que ela reconheceu. Pouco depois o quadro descambou para um coma e dias depois para sua morte.
Não fui ao seu velório nem deixei que me vissem chorando sua morte. Para não a perder, peguei todas as minhas lembranças dela e as fiz parte de quem eu sou. Incorporei seus gostos, manias e modos aos meus. Coisas pequenas, algumas até sem importância, mas que me fazem ser um pouco como ela. Que me fazem suportar a grande perda da minha vida.
sábado, 14 de agosto de 2010
Poros, Tinos, Delos, Patmos, Cíclades...
Capítulo 7 - De mãos dadas
Não vi a decolagem. Não chorei na despedida. E não vi quando você ficou. Sei que você ficou. Soube no instante em que você estendeu a mão em direção à minha e segurou firme. Tão firme que eu soube também que, agora, era para nunca mais largar. Para nunca mais largar.
domingo, 8 de agosto de 2010
Capítulo 6 - Embarque imediato
Erramos o horário e você perdeu o vôo. O meu sairia em duas horas, o seu um pouco antes. Enquanto esperávamos, no meio de uma conversa calorosa sobre cidades, eu quis saber:
-E agora?
-Paola, o que você quer, afinal? Você perguntou, já sem paciência.
-Eu quero você. Fica? Fica ao lado meu. Me deixa cuidar de você. Cuida de mim também. Quero ser guiada pelos seus silêncios e nostalgias. Conhecer os detalhes de você. Mostrar o melhor de mim. Fazer fotografia e conhecer a América de mochila ao seu lado. Dividir meus amigos. Contar histórias deitadas no seu colo. Fica? A gente dá um jeito. Eu venho. Você vai. Finais de semana. Férias. Feriados. Dia santo. Avião. Carro. Sinal de fumaça. Telefone. Internet. Pombo correiro. Nós dois, juntos.
(Atenção, passageiros com destino a vitória, embarque imediato no portão 6)
-Fica?
(Atenção, passageiros com destino a vitória, última chamada para embarque)
-E agora?
-Paola, o que você quer, afinal? Você perguntou, já sem paciência.
-Eu quero você. Fica? Fica ao lado meu. Me deixa cuidar de você. Cuida de mim também. Quero ser guiada pelos seus silêncios e nostalgias. Conhecer os detalhes de você. Mostrar o melhor de mim. Fazer fotografia e conhecer a América de mochila ao seu lado. Dividir meus amigos. Contar histórias deitadas no seu colo. Fica? A gente dá um jeito. Eu venho. Você vai. Finais de semana. Férias. Feriados. Dia santo. Avião. Carro. Sinal de fumaça. Telefone. Internet. Pombo correiro. Nós dois, juntos.
(Atenção, passageiros com destino a vitória, embarque imediato no portão 6)
-Fica?
(Atenção, passageiros com destino a vitória, última chamada para embarque)
-Fica? Pedi, pela última vez e estendi a mão, à espera da sua. Vamos de mãos dadas?
(Atenção, passageiros com destino a vitória, embarque encerrado)
Capítulo 5 - A volta
No último dia, acordamos cedo. Comecei a juntar minhas coisas espalhadas pela sala enquanto você, no quarto, fazia a sua mala. Olhei ao redor: o violão no canto da parede. As almofadas do sofá no chão. Uma garrafa de vinho vazia. Minha bolsa aberta. Fui além: reparei nos móveis que você não escolheu. Na mesa mal posicionada com cadeiras modernas demais. Tudo muito clean, com a cara da vida que eu sequer sabia que você tinha. Com a cara daquilo que eu sequer sabia que você era. Foi. Era. Ainda é? Mas aí, o relógio já marcava nove horas. Entramos num táxi e fomos rumo ao Santos Dumont...
Capítulo 4 - Vinte
No quinto dia, o sol apareceu tímido. Da sacada, o redentor de braços abertos. Saí. Meu coração bateu forte sem que ninguém o escutasse, o tempo inteiro. Primeiro Leblon. De lá, Ipanema. Parei no Arpoador e arquitetei planos: internato no rio, residencia na santa casa, finais de semana na praia, uma ou outra noite com você, passeios diários com o Sinatra no calçadão. Eu alugaria um apartamento, faria amigos, passaria os dias no PS, teria um skate e aprenderia a surfar. Quis te fazer um jantar, um bolo para o café da manhã e enfeitar a mesa com flores, mas desisti enquanto caminhava até Copacabana...
Capítulo 3 - 13º
Aí, você quis saber: Paola, por que você veio?
Porque te amo, pensei.
-Não sei, eu disse.
-Não sei mesmo, repeti.
Porque te amo, pensei.
-Não sei, eu disse.
-Não sei mesmo, repeti.
Capítulo 2 - Riachuelo
Esperei. Te esperei tanto. Os minutos viraram horas. Ali, hesitei entre continuar a espera ou juntar tudo e ir embora. Sou sensível à pequenas indelicadezas. Se fui, fiquei. Outra vez fiquei. O tempo, cinza e nublado, foi cedendo à chuva. Choveu forte. Esfriou. Escureceu. Mas aí, você chegou. Nos olhamos com ares de estranheza. Eu, antes tomada de saudade, estava contrariada demais com o descaso. Você, com a presença. A chuva parou. Cedemos também. Te abracei forte. Você pousou a barba na curva do meu pescoço. Demos as mãos e subimos...
Capítulo 1 - Dezesseis
Ah, eu quero te dizer que o instante de te ver custou tanto penar...Entrei no avião cantarolando Chico, com duas bagagens, incertezas, um chocolate e vontade de acertar. Me livrei dos meus pertences, me acomodei na 7F, abri a janela para ver o sol e continuei com a cantoria: não vou me arrepender, só vim para te dizer que eu vim pra não morrer de tanto te esperar. Um lanche péssimo e quarenta minutos depois veio o aviso de atar cintos, retornar a poltrona para a posição vertical e se preparar para o pouso. Da janela eu via o mar. Aterrisamos. Desci, peguei minhas malas e procurei um lugar para sentar. Fiquei ali, com o telefone e o coração nas mãos, esperando que você me ligasse. Você não ligou. Insistente, continuei de onde havia parado: eu quero te mostrar as marcas que ganhei nas lutas contra o rei, nas discussões com Deus e agora que cheguei. Me enchi de coragem e justificatívas plausíveis. Liguei. Dez minutos depois estava num táxi cruzando a Mem de Sá...
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