“Não, ela não era tola.
Mas como quem não desiste de anjos, fadas, cegonhas com bebês, ilhas gregas e happy ends cinderelescos, ela queria acreditar.
Até a noite súbita em que não conseguiu mais”.
Andei lendo sobre eutanásia. Não, livros de bioética definitivamente não têm lugar na minha cabeceira, mas como o fim do semestre está aí, alguns trabalhos precisavam ser terminados. A questão acerca da eutanásia é controversa porque esbarra na influência das idéias judaico-cristãs de que não é dado ao homem o direito de dispor da sua própria vida porque ela pertence a Deus, o homem é dela um simples usuário. Por outro lado, viver um profundo sofrimento pode ser algo insuportável para o titular da existência. Em casos nos quais o desespero e a agonia dão o tom, a interrupção do martírio é um ato de compaixão.
Eu, particularmente, sou contra. Minha opinião não fundamenta-se em religião, dilemas éticos nem compaixão: eu simplesmente não sei desistir. Sei lá, a medicina é incerta. Há possibilidades. O inesperado acontece. E um coração que antes fibrilava ressurge rítmico e forte.
Por acreditar, à espera de prognósticos melhores, eu tive, até hoje, tudo o que não era e não devia. E o amor, para mim, sempre foi difícil e por vezes me doeu. Talvez seja minha incapacidade de escolha, meus mecanismos de auto-sabotagem ou pura falta de sorte mesmo. Talvez seja por não desistir. Por não puxar a tomada ao ver a agonia do outro. Nunca atirar para matar. Não arrancar de mim os pedaços que ficaram de você. Por esperar. E insistir.
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