Sempre fui de idealizações. Platonismos. Sair sem mala. Com destino incerto. De fazer jantares. Acender velas. Andar mil quilômetros para visitar alguém, encontrar as portas fechadas e voltar. Esperar pelo melhor. De acreditar. Não medir esforços. De cultivar ilusões e mantê-las lindas, dia após dia, numa redoma.
O fato é que não consigo mais. Tenho assistido à morte da minha ilusão mais bonita. Aquela que por tanto tempo me foi essencial, que encheu de cor os meus últimos dois anos. Acho que não existe nada mais triste do que uma ilusão acabar. Mas quando não há reciprocidade qualquer esforço, por menor que seja, torna-se hercúleo demais. Se não sou eu quem te faz ficar acordado pela madrugada, se não é para mim que você liga quando viaja, se não sou eu com quem você quer estar, não me sobra nada além de migalhas, incertezas e esperas. E isso eu não quero mais.
Não há o que fazer: foi acontecendo assim aos poucos, com visitas adiadas, perguntas sem respostas, o telefone mudo. Seria mais fácil se você tivesse entrado em casa, feito suas malas, rasgado fotografias e gritado: não te quero mais. Eu teria raiva, quebraria discos, apagaria saudades, arrancaria de mim todos os vestígios de você. Mas não foi assim. Você deixou subentendido. E se eu, a cada volta sua, fiz planos de sermos felizes para sempre, viagens ao rio, noites em claro e me enchi de expectativas, a culpa é minha.
E agora ficou um espaço vazio, uma inquietação, esse nó na garganta. Meu porto seguro para sempre maculado. Em madrugadas como essa, penso em Bandeira, “em tudo que poderia ter sido e não foi”. Mastigo lembranças, repito pra mim mesma que depois daquela segunda-feira, nunca deveria ter voltado. Que não deveria ter te recebido tantas vezes de braços tão abertos. Envergonho-me por estar aqui, com um desassossego que não me deixa, enquanto deveria estar lá fora, costurando novas histórias, dormindo em outros braços. Quero de volta tudo o que te dei. Devolva o caquinho do meu coração que ainda hoje repousa às margens da Baía de Guanabara, debaixo dos braços do Cristo Redentor.
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