"Hoje lembrando-me dela
Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela
Porque era eu"
Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela
Porque era eu"
Quatro ou cinco da manhã. Da janela do carro eu via o sol emanando seus primeiros raios e colorindo todo pão de açúcar. De Botafogo à Lapa, a cada rua que cruzávamos a noite cedia mais e mais espaço ao dia que brotava tímido.
Quando chegamos, disse coisas absurdas, pedi, implorei. Mas eu não te convencia, você não me olhava nos olhos. Eu, bethânia, latina, pedia, repetia: volta para mim, juntos nós ficamos tão bem. Me desesperei. As horas passavam e não havia acordo algum. Só impasses. Silêncios constrangedores. Eu não conseguia compreender como tanta atenção preocupada dera lugar a uma indiferença morna em tão pouco tempo. Não conseguia deixá-lo ir.
Em meio a lençóis amassados e palavras ásperas, adormecemos. Quando acordei, peguei as minhas coisas e fiquei com a mão na maçaneta por longos minutos. Hesitava em ir embora, pois sabia que, a partir do momento em que aquela porta se abrisse, de nada adiantou o esforço, a renúncia do amor próprio, todas as minhas boas intenções. De nada valeu esse tempo em que, para se manter junto, cuidei mais de você que de mim. Sabia que, quando a porta se abrisse, seria apenas o fim. Que aquela seria a última vez que você viria ao meu resgate. A última vez em que eu veria o cristo de braços tão abertos pela sacada do seu apartamento. Pouco sabia eu. Pouco sabia eu.
Abri a porta e saí, para horas depois encontrá-lo: o mesmo acaso que uniu daria ali o seu veredito final. Fiquei um tempo parada, sem saber o que fazer e assim, sem pensar em nada, entrei num táxi e cruzei a cidade. Fui parar em Ipanema, na Nascimento Silva, onde você não me doía mais. Nunca mais.
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