terça-feira, 19 de outubro de 2010

The very last one




Os ventos nublados e frios de Agosto passaram. Veio Setembro e suas flores, devassando tudo, trazendo novas esperanças. A vida parece se recuperar, brota da terra e das calçadas e a primavera, sinônimo de reconstrução, anuncia sua chegada. É tempo de abrir as cortinas para o sol, de deixar a brisa leve entrar e varrer o pó, de encher a casa de rosas. É tempo de ipês.


Eu, como você sabe, sou alguém que ama ipês. Para mim eles são um pequeno milagre que acontece defronte aos nossos olhos. Crescem solitários, sem que ninguém os perceba. Secam. Ficam desnudos. Enfrentam dificuldades. Sobrevivem ao inóspito. De repente reaparecem, lindos, com suas flores amarelo manga saltando a vista, anunciando dias ensolarados e renascimentos, iluminando caminhos. E mesmo que suas flores murchem e caiam, eles sempre voltam na próxima estação.


Por tudo isso, sou alguém que ama ipês. Que chora em despedidas. E que espera sempre pelo melhor. Tenho resistido toda manhã a um impulso imenso de me deixar afogar nos edredons. Não tem sido fácil. O hospital, antes tão fascinante, tornou-se uma obrigação quase hercúlea que me exige tempo, esforço. Navegar por aqueles corredores é um lembrete diário do quanto falta aprender, do quanto falta crescer. Por tudo isso, me sinto perdida. Me sinto sozinha. Mesmo acompanhada, mesmo rindo, mesmo no cinema: parece que estou sozinha, parece que estou perdida.


Acho que o que me falta e me aflige é não saber o que fazer. A decisão mais importante da minha vida está a cada dia mais próxima e não saber o que fazer me apavora. Porque embora parte de mim acredite que os caminhos são feitos à medida do percurso, a outra parte necessita de objetivos e planejamentos. Tenho medo de ficar presa a uma escolha, de viver nessa constante insatisfação de querer o que não tenho, de ficar eternamente entre aquilo que sou e tudo o que ainda quero ser. Tenho medo de não ser feliz.


Voltei do Rio envergonhada. Não gosto de me expor, principalmente a você. É como seu eu, ao demonstrar toda a minha vulnerabilidade, ficasse em suas mãos, à mercê, à espera de sentimentos que não deveriam ser dados por solicitação. Eu, sempre tão forte, fico rendida. Você me desconcerta, não sei explicar. Saber da parte da sua vida que eu não imaginava que existisse me remeteu à minha história preferida, esquecida há anos em algum desses cantinhos que a memória da gente tem.

É a história de Frédéric, escrita no século passado por Gustave Flaubert, num romance chamado Educação Sentimental, que você acharia chatíssimo. Ele, um jovem francês que se muda para Paris em busca de um futuro promissor, apaixona-se por uma mulher linda, encantadora e casada, a senhora Arnoux, se não me falha a lembrança. O fato é que Frédéric passa a vida atormentado pela impossibilidade do seu amor, sempre sonhando, sempre frustrado. Um dia, em meio às mudanças que revolução francesa trouxe, ele depara-se com a possibilidade de ter aquela que ele tanto desejara, mas recusa e foge. Para mim, Frédéric fugiu pelas circunstâncias, porque que não poderia nunca conviver com a idéia de que ela se entregasse a ele por necessidade, para salvar sua família ou por algum outro motivo além de amor. Ele foi embora para não degradar o seu ideal.

Com Frédéric, aprendi a fugir das frustrações. Aprendi a abandonar histórias e pessoas antes de degradar o meu ideal. Vivi achando mais cômodo conviver com a indagação de como teria sido do que com o malogro depois da tentativa. Com você, foi diferente: eu quis ficar. E quis ficar porque descobri que degradar um ideal é, na verdade, o melhor que pode acontecer a alguém. É a oportunidade de cruzar o intervalo que existe entre a ação e o desejo, entre o querer e o medo. É a possibilidade de ver. De enxergar e aceitar o outro pelo que ele é, sem idealismos e fantasias.

Ainda gosto muito de você. Nos meus devaneios ainda espero que você toque o interfone, peça para subir e me diga que descobriu que também gosta de mim. Que veio por não aguentar mais tanta saudade. Para me pedir para sermos felizes para sempre. O que mudou é que saber da sua vida e dos seus amores me fez parar de achar que eu não tinha você por não te merecer, por ser um pequeno monstro. Claro que ainda quero ser alguém com mais serenidade, determinação e boa vontade com os outros, mas parei de querer ser quem não sou. Saber da sua vida fez com que o meu gostar ficasse mais perto de quem você é. Hoje posso afirmar: gosto de você por quem você é e não mais pelo que achava que você fosse.


Eu gostaria muito de ter respostas e certezas. De saber o que fazer, que rumo seguir, o que escolher. De bastar. Acabar com as dificuldades que aparecem dia-a-dia. Garantir a você um caminho só de ipês. De prometer melhorar meu gênio forte, ser menos melodramática, não insistir nem ser sarcástica e cruel com as pessoas que amo. Enquanto isso, agradeço por estar viva. Pelos lugares que passei. Por tudo o que vivi. Por ser exatamente como eu sou. E sigo.

Sigo sem aceitar que você queria construir muros ao invés de pontes. Que apesar dos laços que criamos e da cumplicidade construída com tanto esmero dia após dia, você queira nos separar. Insisto por acreditar que ainda não vivemos o que temos de melhor. Estou cansada de parar. Sim, porque nunca terminamos de fato, a gente simplesmente para. Você já me ensinou a querer ficar. Fique também. Me ensine agora a continuar.









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