"Nuvens passageiras levadas pelo vento
A perderem-se na distância infinita do tempo"(Neusa Calafiori, in memoriam)
Assim que cheguei o professor me entregou um prontuário e pediu prioridade. A paciente havia sido atendida pela manhã, em regime de pronto atendimento, e retornava agora para acompanhamento do caso. Ali na minha frente estava uma mulher emagrecida, de cinquenta e poucos anos, alcóolatra, que para manter o vício deixara tudo de lado, inclusive a dignidade. Durante a anamnese ficou evidente para mim o quanto somos moldados pelo ambiente em que vivemos, pelas oportunidades que perdemos e pelas pessoas que amamos.
Há, em mim, traços dos meus pais, de todos os lugares onde cresci e de tudo o que vivi, mas nada disso foi tão marcante em minha vida quanto a presença da minha avó. Ela, também mineira, foi filha única, falava francês, tocava piano e só cozinhava pratos sofisticados. Casada, foi mãe de cinco. Divorciou-se numa época em que os casamentos, mesmo ruins, eram indissolúveis, Tornou-se advogada. Sempre foi poeta. E me amou incondicionalmente.
Aprendi logo cedo que avó não era para educar e sim para fazer tudo o que a netinha quisesse. Eu era a preferida e ela não fazia questão de esconder isso. Gostava mais de mim e pronto. Com ela, passei invernos e verãos. Dias de sol em Itapema e Balneário. Caminhadas no Parque Malwee. Lanches no sorvetão. Brincadeiras na escada do prédio. Aprendi a fazer fogueira de fósforo, a comer crepe suíço, a ter boas maneiras à mesa, a não falar palavrão e a não mentir. Dela herdei a paixão por poesia, Frank Sinatra e a vontade de ter um amor tão lindo quando o narrado em strangers in the night.
No fim dos seus dias vagava pela casa declamando a diferença entre amor e paixão, alheia ao presente. As unhas ainda eram pintadas de vermelho, mas os cabelos loiros ficavam cada vez mais claros e os olhos azuis cada vez mais distantes. Nossa despedida foi sem palavras. Ela, aos setenta e dois, havia sofrido um AVE e estava internada. Não respondia mais, mas quando disseram que eu estava no quarto, me procurou com o olhar, estendeu uma das mãos e apertou a minha com toda a força que ainda lhe restava. Eu fui a última pessoa que ela reconheceu. Pouco depois o quadro descambou para um coma e dias depois para sua morte.
Não fui ao seu velório nem deixei que me vissem chorando sua morte. Para não a perder, peguei todas as minhas lembranças dela e as fiz parte de quem eu sou. Incorporei seus gostos, manias e modos aos meus. Coisas pequenas, algumas até sem importância, mas que me fazem ser um pouco como ela. Que me fazem suportar a grande perda da minha vida.
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