"Ela gostava de estar com ele.
Ele gostava de estar com ela.
Isso era tudo".
Chego junto com as últimas horas do dia e subo as escadas apressada. Antes de entrar, advinho você por uma brisa leve que escorrega por debaixo da porta trazendo teu cheiro até mim. Hortelã e alecrim, penso. Evidencio tua presença pelo caminho: vejo um copo vazio sobre a mesa e o violão no sofá. Tiro os sapatos e sigo mansamente até o quarto. Entreabro a porta devagar, fazendo anteparo para não deixar muita luz entrar. Sorrio ao te encontrar na minha cama. Plácido. Lívido. Me distraio velando o teu sono por alguns minutos. Quando vejo, já escrevi o roteiro do nosso amor idílico, recriando um universo edulcorado, em tons pastéis. Penso em como ter você, assim, tão tangível, me faz bem. Me sinto melhor, feliz, mais inteira. Tiro a roupa em silêncio, peça a peça, num esforço quase hercúleo pra não te acordar. Me enfio ao teu lado, debaixo do cobertor. Você nota minha presença, me abraça pela cintura e encaixa minha cabeça no teu braço, tipo travesseiro.
Amanhece. Os raios de sol que adentram toda a casa anunciam a vida além da janela. Olho em volta, me estico preguiçosamente pela cama e te abraço apertado. Deixo minha mão escapar até tua nuca, onde encontro teus cabelos. Deslizo lentamente meus dedos pelas tuas costas e beijo um cantinho esquecido, bem perto da orelha. É meu modo de dizer bom dia. Você se rende aos meus afagos, desperta e fixa seus olhos cor de primavera em mim. Suspiro e digo que gosto tanto do teu jeito e que sem você minha casa é deserta. Você se comove e ficamos ali, um no do corpo do outro, dentro e fora um do outro, por um tempo indefinido. Passam-se minutos, horas, talvez dias.
A tarde avança bruscamente rumo à noite. A chuva que ameaça cair põe fim a nossa dúvida sobre ver um filme, com pipoca e guaraná ou sair para uma aventura. Acabamos embolados no sofá, entregues às tantas histórias para se contar e se ouvir. Você com teu violão e um sorriso leve nos lábios canta que é de se entregar o viver. Eu com meus livros e miudezas te encaixo em planos vagos e tergiverso sobre cores. Você me diz que prefere verde. Respondo que, para mim, você é como o amarelo que traz calmaria e falo em campos de trigo, verão, pés de caju e flores de ipê. Conversamos sobre projetos futuros, passados próximos e presentes impossíveis. Combinamos um banho de mar e uma viagem para Amsterdã, Praga ou Budapeste. Confessamos desejos ao pé do ouvido um do outro. Cansados, trocamos as palavras pela linguagem silenciosa da ponta dos dedos e nos guiamos pelo toque, tato e vazios pontuados de interrogações.
A lua agora sobe, iluminando o que vê pela frente. Um abraço longo, agradecimentos pelo final de semana agradável e promessas vagas de nos vermos em breve anunciam o fim: é chegada tua hora de voltar para os além-setecentos-quilômetros e algum outro amor. Te peço, do meu jeito, para ficar: digo que quero você aqui, numa terça-feira qualquer, enquanto a pizza não chega. Você não entende e se vai. Vai levando o meu coração e ficando na minha saudade, enquanto espero pelo próximo dia em que a vida nos reabraçará.
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