"Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou"
Começo de noite de um sábado chuvoso. No apartamento, luzes apagadas e coberta espalhada sobre o sofá de couro rosa da sala, onde estive deitada até agora. O silêncio, até pouco tempo ensurdecedor, foi substituido por canções de Sinatra, que inundam de saudade meu coração.
Voltei há quase três semanas e só agora consegui colocar minha vida acadêmica em ordem. Penso que, em poucos meses serei, finalmente, terceiro-anista. Mas até lá, tem a neuroanatomia que me intimida, as lesões patológicas que parecem todas iguais e as aulas de farmaco que avivam minha memória para velhos amigos e escolhas antigas.
Agora que não tenho mais você, olho em volta e me vejo incrivelmente sozinha. Você, embora estivesse presente pouquíssimas vezes, estava sempre comigo. Aqui dentro, sabe? Sei que foi melhor assim. Não quero ter um amor repleto de ressentimento&todos-essas-coisas-feias-que-as-pessoas-sentem-quando-são-trocadas-e-não-conseguem-esquecer e, ainda assim, ter que implorar, entende?
A verdade é que, às vezes, faço fantasias loucas com você. Daquelas em que o telefone toca e eu atendo. Descubro, então, que a voz do outro lado da linha é a sua. Você diz que, como eu, tem saudade do que não vivemos. Que perdoa as vezes em que meti os pés pelas mãos e as minhas palavras, quase sempre duras. Que sim, não teve mesmo nenhuma consideração. Diz que sente muito a minha falta e, finalmente, me convida para fugirmos juntos.
Logo depois, vem a realidade e me dou conta de que a vida que existe entre essas paredes é só essa: a minha. Mesmo assim, fico bem.
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