"As coisas mais insignificantes têm às vezes maior importância e é geralmente por elas que a gente se perde"(Dostoiévski em crime e castigo).
Sim, deve ter havido um iníco. Um dia banal, talvez uma quarta ou quinta-feira, em que tudo começou, embora eu não me lembre. Tenho vagas lembranças desse tempo: você beijando minha mão de manhã, risos, brincadeiras na escada, descobertas, caronas, jantares e a sua partida. Simplesmente chegou um dia em que você não foi. E outro, e outro e outro. E eu, aos poucos, me acostumei com a sua ausência.
Às vezes conseguia ver seu sorriso em algum outro sorriso, seu jeito de andar em algum outro jeito de andar ou ainda, sentir seu cheiro em algum outro cheiro. Foi no meio de uma conversa rotineira que você disse que me amava. Lembro-me como se fosse hoje: entre inúmeras coisas sem importância você disse que me amava. Daquele dia em diante foram muitos desencontros e planos que não se concretizaram, até que. Até que.
Foi numa tarde ensolarada que vi você caminhando em direção àquele encontro. Talvez estivéssemos despreparados, mas havíamos esperado tanto, nos queríamos tanto. Você me olhou como ele nunca olhara, me amou como ele nunca amara e fez com que eu me sentisse cuidada. Se pudesse, permaneceria naquele momento para sempre. Foi com uma voz baixa e com um certo sentimento de ridículo que eu te disse, enquanto você esperava o ônibus de volta, que te amava. Nunca havia dito aquilo antes. Nunca havia sentido aquilo antes. Eu pensava que não existia. Ou que, se existia, não era para mim.
Depois disso nos vimos presos a uma convivência diária e para isso sim, acho que estávamos completamente despreparados. Sim, porque já havíamos nos acostumado com a falta. Uma falta, ora grande, ora pequena e que, embora normalmente não chegasse a incomodar, doía vezenquando. Também vieram outras tardes, noites, manhãs, abraços, beijos, surpresas, brigas, conversas, decepções, declarações, sumiços, ciúmes, encontros e desencontros.
Acordei no meio de alguma madrugada e fiquei um tempão te observando: sua respiração pesada, seu nariz parecido com o meu, seu corpo semi-nu. Você, vez ou outra, falava palavras desconexas, mas eu nem tentava entender porque só conseguia pensar no quanto te amava. Eu precisava de você bem mais do que você ou qualquer outra pessoa precisava ou precisou de mim.
Houve um descompasso entre nós. Ah, como eu gostaria de me relacionar com você sem esperar absolutamente nada (como naquela música dos engenheiros, sabe?), mas houve, há e sempre haverá expectativas e emoções. Que às vezes não se mostram. Que quase sempre não se cumprem. Sou, é, somos assim. É assim que as pessoas são.
Não sei dizer quando tudo começou, mas deve ter havido um início, embora eu não me lembre. O que sei é que parte de mim cansou-se de bater e bater e bater numa porta que parece nunca se abrir. Parte de mim ainda te adivinha atrás de todas as janelas.
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